terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dicas de Português


Dad Squarisi

Recado
"A cidadania começa com o alfabeto."
Ulisses Guimarães


Com orgulho sim, senhor

O primeiro turno passou. Alguns comemoram a eleição. Outros continuam na disputa. A imprensa divulga desempenhos, números e bancadas. A toda hora o nome dos estados vem ao cartaz. É aí que a porca torce o rabo e fere os ouvidos de eleitos e eleitores. O responsável pela tortura? É ele, o artigo.
Alguns dizem Goiás e Pernambuco. Sou de Goiás. Sou de Pernambuco. Morei em Goiás. Morei em Pernambuco. Passei por Goiás. Passei por Pernambuco. Outros, o Goiás, o Pernambuco. Sou do Goiás. Sou do Pernambuco. Morei no Goiás. Morei no Pernambuco. Passei pelo Goiás. Passei pelo Pernambuco. Eta confusão! Afinal, o nome pede ou não pede o ozinho?
Acredite: Goiás, Pernambuco & outros têm alergia ao artigo. Diante deles, o estado fica vermelho, inchado, cheio de erupções cutâneas. Por isso, pede piedade. Por que não atendê-lo? Livre-o do indesejado. Sem ele, a unidade federada exibe todo o charme e lembra os ilustres da terra.
Conhece? Cora Coralina morou em Goiás. Carolina Ferraz nasceu em Goiás e se mudou para o Rio. Leonardo deixou Goiás para ganhar o Brasil. Gilberto Freire, Joaquim Nabuco e Alceu Valença enchem Pernambuco de orgulho.
Os goianos e os pernambucanos não lamentam a debandada das celebridades locais. Aplaudem-nas estejam onde estiverem. Eles sabem de pormenor pra lá de importante. Goiano que é goiano, pernambucano que é pernambucano saem do estado, mas o estado não sai deles.


Como saber?

O nome de outros estados também provoca confusão. É o caso de Mato Grasso, Mato Grosso do Sul, Tocantins. Eles pedem artigo? As dúvidas são muitas. As respostas, difíceis. Como safar-se? Há um caminho infalível pra chegar lá. Chama-se dicionário. A gente procura o verbete do gentílico. O paizão dirá "natural de, do, da". Se aparecer de, o artigo não tem vez. Se do, da, o pequenino terá passagem franca. Veja:

Mato-grossense — o natural ou habitante de Mato Grosso
Mato-grossense-do-sul — o natural ou habitante de Mato Grosso do Sul
Tocantinense — o natural de Tocantins
Baiano — o natural da Bahia
Amazonense — o natural do Amazonas
E por aí vai.

Na prática

Quer exemplos? Ei-los:
Mato Grosso fica na Região Centro-Oeste. Visitei Mato Grosso.
Trabalho em Mato Grosso. Cheguei de Mato Grosso. Mato Grosso do Sul já foi Mato Grosso. Estudei em Mato Grosso do Sul. Na viagem, você passou por Mato Grosso do Sul?
Quem vai passar o carnaval na Bahia? Você já foi à Bahia? Caetano nasceu na Bahia.
O Amazonas é o estado que melhor preserva a floresta. Vamos passar as férias no Amazonas?

 

Outra súplica
Sergipe está no mesmo barco de Goiás e Pernambuco. O pobre estado, sem saber a razão, passou a ser chamado de "o Sergipe". Inimigo incondicional do artigo, ele esperneia, arranca os cabelos, chora e grita. Em desespero, suplica aos falantes da língua portuguesa: "Lembrem-se, por favor. Eu me chamo Sergipe. Tenho belas praias e recebo muito bem os turistas. Venham a Sergipe".

Colaboração

Deus se escreve sempre com letra maiúscula? Wagner responde com este diálogo:
O padre diz ao fiel:
— Jure que Deus é um.
O fiel responde:
— Não há deus. Só há Deus.


Leitor pergunta

A reforma ortográfica alterou a grafia de dia a dia?
João Brasil, Brasília

Dia a dia, como mão de obra, pé de moleque, tomara que caia e mula sem cabeça, perdeu o tracinho. Agora todas se escrevem assim — soltinhas, sem lenço e sem documento.

Coluna publicada na edição de quarta-feira, 6 de outubro de 2010 do Jornal do Commercio

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