segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Por favor. Algo que não seja nada.

Nada para escrever. Pela primeira vez - anos se passaram - me aventuro a divagar pelo nada.
O que vem: nada.
E assim continuo digitando, teclando, quase datilografando, à espera de nada que seja nada.
Alguma coisa.
Uma vez que o que queira escrever, de fato, esteja longe de ser formulado, não me incabulo de vasculhar o nada.
Política, Futebol, Inventário.
Dilma cacarejou.
Serra grilou.
Vasco perdeu.
Botafogo empatou.
Tanta mesmice, que prefiro viajar sobre o nada.
Nada na mente, nada nas ideias, nada me interessa.
Em busca de uma nova maneira de viver, me deparo com o nada.
Mas, é assim mesmo. Isso é super natural. Deveria estar acostumado. Ou, deveria prever.
Mas. Nada.
Prefiro seguir o conselho espiritual: entregue.
Para o quê? Quem?
Nada...
Deixo a vida me levar.
Sem me descuidar.
Não entrego.
Rezo.
Seja o que for, continuo sendo.
Algo que não seja nada.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Dicas de Português


Coluna da Dad Squarisi
publicada na edição de segunda-feira, 18 de outubro de 2010,
no Jornal do Commercio, caderno B, página 14.
dadsquarisi.df@dabr.com.br 
(Blog da Dad www.correiobraziliense.com.br)

Recado
"A ortografia é mais que um mau hábito. É uma vaidade."
Raymond Queneau


Fênix, a vitória da vida
Viva! Os mineiros chilenos saíram do fundão da montanha sãos e salvos. Uma cápsula os resgatou. Chama-se Fênix. O nome é antigo como o mundo. Vem da Grécia. Era um pássaro fabuloso e enorme. Parecia uma águia com penas vermelhas, azuis e douradas. Em toda a Terra, só existia uma. Sem companheiro, ela não podia ter filhos. Então, inventou um jeito de se manter viva.
Quando ficava velhiiiiiiiiiiiinha, enganava a morte. Ia pra floresta. Lá, selecionava plantas cheirosas e ervas mágicas. Fazia um ninho bem acolhedor. Em seguida, punha fogo na obra. Esperava as chamas ficarem bem altas e… saltava para o meio da fogueira. Virava cinza. Então, acontecia o milagre. Das cinzas nascia outra fênix. Era a fênix renascida. E começava tudo de novo.

Sem esforço
Fênix tem plural? Não. Os dois números têm a mesma forma (a fênix, as fênix). A pronúncia? Há duas. O x pode soar s ou cs.

Turma do x
As palavras terminadas em x têm uma marca. São pra lá de preguiçosas. Elas ostentam este lema — um é bom, dois é demais. Por isso escrevem-se do mesmo jeitinho no singular e plural: o tórax (os tórax), o xerox (os xerox), o ônix (os ônix), o telex (os telex).
Exceção? Fax joga em duas equipes. Uma: time dos preguiçosos (o fax, os fax). A outra: time dos trabalhadores (o fax, os faxes).

É portuguesa com certeza
Você está pensando no compartimento do banheiro onde tomamos banho de chuveiro? Ou nos espaços separados por divisórias? Ou no jogo em que os contendores, com luvas especiais, dão murros um no outro? O nome dessa gangue é boxe. Assim, com e final. O plural? Boxes.

Encher linguiça
Ufa! Finalmente os candidatos falaram. Ou melhor: foram obrigados a falar. Nos debates, surgem temas imprevistos. Não permitem, por isso, a decoreba. No debate da Band, Serra perguntava à Dilma. Dilma perguntava a Serra. No bate-boca nem sempre gentil, um verbo sobressaiu. É tergiversar.
"Você está tergiversando", repetia a petista depois de cada resposta do tucano. Os telespectadores estranharam a insistência. O que, afinal, significa a vedete verbal? O dicionário explica. É recorrer a evasivas, buscar subterfúgios, procurar rodeios. Em bom português: enrolar.

Leitor pergunta
Os jornais têm usado cada vez mais as aspas simples. Na quinta, li esta manchete: Candidato pede saúde ‘humanizada’ . A prática está provocando confusão na cabeça da moçada. Afinal, pode-se usar a solteirinha a torto e a direito?
Emílio das Chagas, Chapecó

Alto lá! A língua não é a casa da mãe joana. Ela tem regras. Uma delas: as aspas simples têm vez quando estiverem dentro de aspas: "Candidato pede saúde ‘humanizada’ ".


***

Se a mulher do presidente é a primeira-dama, como é chamado o marido da presidenta?
Patrícia Gomes, Barbacena

O coitado está desamparado pela língua. Como o fato é novidade, o maridão não tem nome especial ainda. Há quem fale em primeiro-cavalheiro. Ou primeiro-consorte. É chute.

Os heróis chilenos

A tragédia não passou de um susto. Após mais de dois meses a 622 metros abaixo da superfície terrestre, 33 mineiro chilenos saem como heróis de 'não sei o que'. O que poderia ter sido uma das maiores tragédias da história chilena e da mineração mundial, não passou de uma comemoração ufanista e política do presidente do Chile, Sebastián Piñera. O episódio teve seu primeiro capítulo concluído com um desafio proposto por Piñera: quem vencer a partida de futebol entre a equipe dos membros de seu gabinete e a equipe dos mineiros fica no Palácio de La Moneda, quem perder, VOLTA PRA MINA! Isso é brincadeira que se faça?

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Dicas de Português


Dad Squarisi

Recado
"A cidadania começa com o alfabeto."
Ulisses Guimarães


Com orgulho sim, senhor

O primeiro turno passou. Alguns comemoram a eleição. Outros continuam na disputa. A imprensa divulga desempenhos, números e bancadas. A toda hora o nome dos estados vem ao cartaz. É aí que a porca torce o rabo e fere os ouvidos de eleitos e eleitores. O responsável pela tortura? É ele, o artigo.
Alguns dizem Goiás e Pernambuco. Sou de Goiás. Sou de Pernambuco. Morei em Goiás. Morei em Pernambuco. Passei por Goiás. Passei por Pernambuco. Outros, o Goiás, o Pernambuco. Sou do Goiás. Sou do Pernambuco. Morei no Goiás. Morei no Pernambuco. Passei pelo Goiás. Passei pelo Pernambuco. Eta confusão! Afinal, o nome pede ou não pede o ozinho?
Acredite: Goiás, Pernambuco & outros têm alergia ao artigo. Diante deles, o estado fica vermelho, inchado, cheio de erupções cutâneas. Por isso, pede piedade. Por que não atendê-lo? Livre-o do indesejado. Sem ele, a unidade federada exibe todo o charme e lembra os ilustres da terra.
Conhece? Cora Coralina morou em Goiás. Carolina Ferraz nasceu em Goiás e se mudou para o Rio. Leonardo deixou Goiás para ganhar o Brasil. Gilberto Freire, Joaquim Nabuco e Alceu Valença enchem Pernambuco de orgulho.
Os goianos e os pernambucanos não lamentam a debandada das celebridades locais. Aplaudem-nas estejam onde estiverem. Eles sabem de pormenor pra lá de importante. Goiano que é goiano, pernambucano que é pernambucano saem do estado, mas o estado não sai deles.


Como saber?

O nome de outros estados também provoca confusão. É o caso de Mato Grasso, Mato Grosso do Sul, Tocantins. Eles pedem artigo? As dúvidas são muitas. As respostas, difíceis. Como safar-se? Há um caminho infalível pra chegar lá. Chama-se dicionário. A gente procura o verbete do gentílico. O paizão dirá "natural de, do, da". Se aparecer de, o artigo não tem vez. Se do, da, o pequenino terá passagem franca. Veja:

Mato-grossense — o natural ou habitante de Mato Grosso
Mato-grossense-do-sul — o natural ou habitante de Mato Grosso do Sul
Tocantinense — o natural de Tocantins
Baiano — o natural da Bahia
Amazonense — o natural do Amazonas
E por aí vai.

Na prática

Quer exemplos? Ei-los:
Mato Grosso fica na Região Centro-Oeste. Visitei Mato Grosso.
Trabalho em Mato Grosso. Cheguei de Mato Grosso. Mato Grosso do Sul já foi Mato Grosso. Estudei em Mato Grosso do Sul. Na viagem, você passou por Mato Grosso do Sul?
Quem vai passar o carnaval na Bahia? Você já foi à Bahia? Caetano nasceu na Bahia.
O Amazonas é o estado que melhor preserva a floresta. Vamos passar as férias no Amazonas?

 

Outra súplica
Sergipe está no mesmo barco de Goiás e Pernambuco. O pobre estado, sem saber a razão, passou a ser chamado de "o Sergipe". Inimigo incondicional do artigo, ele esperneia, arranca os cabelos, chora e grita. Em desespero, suplica aos falantes da língua portuguesa: "Lembrem-se, por favor. Eu me chamo Sergipe. Tenho belas praias e recebo muito bem os turistas. Venham a Sergipe".

Colaboração

Deus se escreve sempre com letra maiúscula? Wagner responde com este diálogo:
O padre diz ao fiel:
— Jure que Deus é um.
O fiel responde:
— Não há deus. Só há Deus.


Leitor pergunta

A reforma ortográfica alterou a grafia de dia a dia?
João Brasil, Brasília

Dia a dia, como mão de obra, pé de moleque, tomara que caia e mula sem cabeça, perdeu o tracinho. Agora todas se escrevem assim — soltinhas, sem lenço e sem documento.

Coluna publicada na edição de quarta-feira, 6 de outubro de 2010 do Jornal do Commercio