sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Dicas de Português

Coluna da Dad Squarisi (dad.squarisi@correioweb.com.br) publicada no Jornal do Commercio.
Edição de segunda-feira, 27 de setembro de 2010.
Caderno B, página 14.

A primavera e a mitologia grega
Oba! Na quinta, a primavera pediu passagem. Nalguns estados, chegou coberta de flores. Noutros, trouxe neve. Há também os que nem sentiram a mudança. É o caso de Brasília. A capital dos brasileiros queima. Há 125 dias não cai uma gota de água do céu. A umidade relativa do ar rivaliza com a do deserto do Saara. Beira 10%. Há quem diga que está bem abaixo. Valha-nos, Deus!
Mas a nova estação obedece ao calendário. Cá está. Vale, pois, conhecê-la um pouquinho mais. Comecemos pela etimologia. Primavera vem do latim. Na língua dos romanos, dizia-se primo vera. Em bom português: primeiro verão. Por quê? A história tem a ver com a mitologia grega.

Deméter, a deusa da agricultura
Perséfone encantava a todos por sua alegria e beleza. Era filha de Zeus, o deus dos deuses, e de Deméter, a deusa da agricultura. Um dia, ela veio à Terra dar uma voltinha. Hades, o senhor dos mortos, a viu. Apaixonou-se na hora. Então, sem mais nem menos, o chão se abriu e engoliu a garota. Antes de desaparecer, ela soltou um grito desesperado. A mãe ouviu.
Deméter procurou a filha durante nove dias e nove noites. Não a encontrou. Inconformada, consultou Hélio, o sol, que tudo vê. Ele sentiu muita pena da mãe. Falou-lhe do rapto. Ela se indignou. Disse que não voltaria ao Olimpo sem a filha. A deusa da agricultura deixou de cumprir os deveres. Não alimentava a Terra. Faltou comida. Os homens passaram fome.
Hermes, mensageiro de Zeus, prometeu trazer Perséfone de volta. Com uma condição: que ela não tivesse provado o alimento dos mortos. A moça voltou. Mas ficou pouco tempo. Havia comido sementes de romã. Hades a levou de volta. Zeus, então, arranjou uma saída. Todos os anos, Perséfone fica com a mãe durante nove meses. A Terra festeja com a primavera, o verão e o outono. Nos outros três, a jovem fica com o marido. Nesse período, o planeta se cobre de gelo. Os grãos não crescem. É o inverno.

Moral da história
Viu? Em tempos idos e vividos, só havia duas estações — o inverno e o verão. O frio durava três meses. O calor, nove. Ora, há calor e calor. Em 270 dias, a temperatura varia: sobe, sobe mais, desce. A natureza também se mexe. As flores se vão, abrem caminho para as frutas que explodem no fim no período. E daí? A primavera é o primeiro verão; o verão, o alto verão; o outono, o baixo verão.

Remédio proibido
"Polícia fechou farmácia que vendia remédios proibidos em Formosa", noticiou a CBN. "Ops!", exclamaram os ouvintes. "A cidade goiana goza de tanto prestígio assim?" Explica-se a surpresa. Do jeito como foi dita, a frase diz que os medicamentos são proibidos em Formosa e liberados Brasil afora. Falso.
O problema? A colocação do adjunto adverbial. Fora do lugar, ele armou a confusão. Melhor devolvê-lo ao termo ao qual se refere. Assim: Em Formosa, polícia fechou farmácia que vendia remédios proibidos. Polícia fechou em Formosa farmácia que vendia remédios proibidos. Polícia fechou farmácia que vendia em Formosa remédios proibidos.

Morte no zoológico
Pode? Pode. Emas e emas apareceram mortas no Zoo Safári de São Paulo. A causa mortis? Sabe-se lá. Só se tem certeza de um pormenor. A reforma ortográfica cassou o acento do hiato oo. Zoo, como voo, perdoo, abençoo e coroo, escreve-se sem chapéu, sem lenço e sem documento.
Safári mantém-se como dantes no quartel de Abrantes. Paroxítona terminada em i, joga no time de táxi e biquíni. Todas exibem um gracioso grampinho.

Recado
"A leitura é forma de felicidade. Se lemos com dificuldade, o autor fracassou."
Jorge Luis Borges

Leitor pergunta
A campanha eleitoral gratuita está no ar. A deste ano trouxe uma novidade. Na telinha aparece escrita a fala do candidato. Tropeços não faltam. Vale o exemplo de Levi Fidelis. Com os segundos contados, ele poupa palavras, mas desperdiça acentos. "Vote PRTB prá presidente" pede. Grampo no pra? Pode?
Carmita Sales, Porto Alegre

Nem pensar. Pra é monossílaba átona. Fraquinha, não suporta nem grampos nem chapéus. Xô! Aprecie a felicidade da mocinha: Pra frente, Brasil. Este é um país que vai pra frente. Vote em mim pra presidente.

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